Os 400 anos da presença Açoriana no Maranhão.

Paulo Matos recebendo das mãos do Vereador Batista Matos, a Comenda “Simão Estácio da Silveira” maior distintivo do Legislativo Municipal de São Luís.

MARANHÃO – Ao longo da ocupação das Américas e das grandes navegações, o Brasil estava dividido pelos colonizadores portugueses, entre os Estados do Brasil, ao Sul e o Estado do Maranhão, no extremo Norte, sendo São Luís o local mais estratégico dessa região. À época, a ligação entre Maranhão e Bahia era muito mais prática, quando feita por meio da capital portuguesa, sendo importante para o domínio de Portugal a existência de dois governos independentes e diretamente subordinados a Coroa Portuguesa.

Acontece que os portugueses deixaram a costa norte do Brasil abandonada por muito tempo, valendo-se dessa omissão os franceses chegam ao Maranhão em 1612 e fundam a cidade de São Luís. Dois anos depois, em 1614, na famosa Batalha de Guaxenduba, acontecida na atual cidade de Icatu, os portugueses derrotara m e expulsaram os franceses do Maranhão.

O Maranhão da época era habitado por índios e por menos de mil soldados portugueses que vieram para combater na batalha que ficou conhecida como ‘jornada milagrosa’, além de poucos franceses que aqui ficaram e formaram famílias com as nativas indígenas  .  

Foi nesse cenário que o Governo Ibérico (Espanha/Portugal) temendo que nações estrangeiras tentassem novamente invadir o território norte do Brasil – onde havia entre tantos interesses, o objetivo estratégico de manter a posse do estuário do Amazonas com suas florestas e rios mais importantes para a navegação da época –  decidiu instituir um efetivo projeto de colonização no Maranhão.

Foi assim que em abril de 1619 o Maranhão recebeu cerca de 200 casais açorianos. Ao longo dos tempos várias outras levas de ilhéus chegaram por aqui, desse modo, cerca de seis mil açorianos vieram para o norte do nosso país no Século XVll.  Os primeiros chegaram trazidos por Jorge Lemos Bittencourt e Simão Estácio da Silveira, sendo que este seria o primeiro presidente da Câmara do Senado e que em alguns anos mais tarde escreveria o livro: “Relação das cousas do Maranhão”, em que relata nossas belezas naturais e demonstra as oportunidades que o Maranhão oferecia para aqueles que quisessem viver aqui.

A chegada desses colonos transformou a vida de São Luís, que deixou de ser apenas um simples quartel das tropas portuguesas, para se transformar em um povoamento de fato. Ressalte-se que os   primeiros povoadores do Maranhão não eram portugueses do continente, mas sim, luso açorianos, que trouxeram com eles sua cultura, arquitetura, seus costumes, artesanato e tradições, que ao longo dos séculos foram se perdendo. Ainda no século XVII esses açorianos também foram povoar outras cidades, além de São Luís, principalmente, Alcântara e Icatu, que ainda hoje guardam reminiscências desse importante período colonial.

Com o passar dos séculos, nós fomos perdendo nossas raízes açorianas, assim como eles também foram abandonando seus vínculos históricos conosco, mas foram eles que após a partida dos franceses, acabaram tomando conta do Maranhão e passaram a ser a maioria da nossa população. Diga-se de passagem que até tempos atrás nossos antepassados ainda falavam das ilhas às quais pertenciam no Arquipélago dos  Açores, fato que podemos comprovar por meio dos registros deixados em seus testamentos datados dos Séculos XVl e XVll.

Perdido no meio do Oceano Atlântico, o arquipélago dos Açores é formado por nove encantadoras ilhas vulcânicas, lugar de um povo hospitaleiro e solidário, predominantemente católico, que tem no turismo, na pesca e na agricultura suas principais receitas.  No século XV caracterizava-se com uma região de fronteira frágil e distante do poder imperial, mas os que lá chegavam um dia tomariam o destino do além-mar.

 Os portugueses começaram a povoar as ilhas oceânicas por volta de 1430, em seguida os flamengos, bretões e africanos também participaram desse processo de povoamento. Ressalte-se que os judeus habitaram os Açores, depois de serem expulsos no início do Século XVl, da Europa continental, por não aceitarem a conversão ao catolicismo; lá eles foram bem recebidos e tratados como iguais e suas capacidades foram aproveitadas e integradas à sociedade local. Atualmente os Açores constituem uma Região Autônoma da República portuguesa, com presidente e legislativo próprios, sua Constituição prever o  poder de fazer leis e executar suas políticas públicas no âmbito territorial regional.    

Quando comemoramos o IV Centenário da imigração açoriana no Maranhão, apesar de muito ter sido esquecido ao longo desses quatrocentos anos e das mudanças significativas acontecidas nos dois lados do atlântico, ainda hoje é possível enxergar a presença das heranças trazidas pelos primeiros povoadores nas nossas festas juninas, casas construídas na zona rural da ilha, carnaval e principalmente na festa do divino espírito santo que até hoje está presente em várias cidades do nosso estado.  É fundamental que preservemos a nossa história pois foi dessa etnia que descendemos, todos nós maranhenses. Maranhão e Açores são irmãos, pois tem no seu povo uma origem em comum.

PAULO MATOS

Membro da Academia Icatuense de Letras-AILCA

 

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