MORRE, EM UBERABA, EX-LATERAL BICAMPEÃO MUNDIAL DJALMA SANTOS.

Djalma Santos à esquerda comemora o título mundial do Brasil na Copa do Mundo de 1958.

Djalma Santos à esquerda comemora o título mundial do Brasil na Copa do Mundo de 1958.

 
RIO – Morreu nesta terça-feira, em Uberaba, o bicampeão mundial (1958 e 1962) Djalma Santos, de 84 anos, morreu às 19h30m, em decorrência de uma pneumonia grave e instabilidade hemodinâmica,. O ex-lateral da seleção brasileira, que jogou por Portuguesa de Deportos, Palmeiras e Atlético-PR, estava internado desde 1º de julho no Hospital Dr. Hélio Angotti, na cidade mineira onde morava.

O talento, a personalidade, a dedicação, os 22 anos de bola vividos em clubes e seleções, fazem de Djalma Santos um dos mais admiráveis personagens da história do futebol brasileiro. História impossível de contar sem a menção a um capítulo fundamental: a vitória sobre a Suécia que deu a Brasil, em 1958, seu primeiro título mundial. Nos dois anos que antecederam à final em Estocolmo, os comandantes do futebol brasileiro se pautaram por relatórios “científicos” que punham em dúvida a capacidade emocional dos jogadores, sobretudo os negros e mestiços, considerados sensíveis demais para enfrentar, longe de casa, as tensões de uma Copa do Mundo. Única explicação possível para que, na equipe que estreou contra a Áustria, não houvesse um negro onde poderia estar um branco. Embora a seleção fosse sofrendo alterações à medida em que o campeonato avançou, Djalma Santos continuou na reserva de De Sordi até a véspera da chamada última batalha. Para surpresa daqueles comandantes, De Sordi é que não teve condições de jogar a final. Chamado para substituí-lo, frio, fora de ritmo, não adaptado aos companheiros e, portanto, em situação pouco favorável, Djalma Santos entrou em campo com a missão de marcar o melhor atacante sueco. Resultado: teve atuação espetacular, ajudou o Brasil a ser campeão e acabou eleito como o melhor lateral direito da Copa.. Ao fim do jogo, de longe, o locutor Oduvaldo Cozzi mandava pelo rádio uma síntese daquela exibição: “Procuro Nacka Skoglund, o deus louros dos estádios escandavos, e encontro o negro Djalma Santos, velho lobo de outras batalhas”.

Ele vinha mesmo de outras batalhas, algumas sofridas, daquelas que transformam o torcedor brasileiro em pessimista crônico. Quatro anos antes, por exemplo, Djalma Santos fora o titular absoluto da seleção de Zezé Moreira, eliminada pela poderosa Hungria (4 a 2), em Berna, nas quartas de final de uma Copa em que o Brasil esperava se refazer do fracasso de 1950 no Maracanã. Foi dele, de pênalti, um dos gols brasileiros. Uma decepção grande para todos, mas, para Djalma, com um sigificado especial. Tendo começado em 1948, na Portuguesa de Desportos, ele fazia parte de uma nova geração de craques que vinha substituir à de Zizinho, Ademir, Danilo, Jair. O time da Portuguesa era bem o símbolo daquela renovação, contando com jogadores como ele, Julinho Botelho, Nininho, Pinga, Brandãzoinho, Simão. Na partida inaugural do Maracanã, ele já estava entre os “novos” da seleção paulista que derrotara a carioca por 3 a 1. No outro lado, Didi, que seria seu companheiro em 1954 e 1958.

Nascido em São Paulo, em 27 de fevereiro de 1929, Djalma Pereira Dias dos Santos começou na zaga central, Mas foi mesmo na lateral — com sua excepional condição atlética, seu jeito de jogar de cabeça erguida, a forma implacável de marcar o adversário sem tocá-lo, a inteligência e, temperando tudo isso, o amor a camisa que vestia, pouco importa de que time fosse — que se fez absoluto. À seleção brasileira ele chegou pelas mãos do mesmo Zezé Moreira, sagrando-se campeão pan-americano, em 1952, no primeiro título do Brasil ganho no exterior. Nos anos seguintes, a derrota em 1954 e a suplência em 1958.

Um ano depois da vitória na Suécia, Djalma Santos trocou a Portuguesa de Desportos pelo Palmeiras. Continuou brilhando. Em 1962, na Copa do Mundo no Chile, já como titular indiscutível, sagrou-se bicampeão. Foi o que o impediu de, com 33 anos, “parar cedo” com o futebol profissional, como ele e o amigo Didi pretendiam. Didi realmente deu início ao seu processo de despedida, transferindo-se logo depois para jogar e ser técnico do Sport Cristal peruano. Djalma preferiu ficar. No ano seguinte, foi o único jogador brasileiro convocado para a seleção da Fifa que enfrentou a da Inglaterra, no velho Wembley, no amistoso comemorativo do centenário da The Football Association. A perspectiva de disputar mais uma Copa do Mundo, sua quarta, na mesma Inglaterra, em três anos depois, animou-o a continuar jogando pelo Palmeiras.

A Copa do Mundo de 1966 foi, em vários sentidos, um grande equívoco. Para alguns jogadores jovens, o fim prematuro. Para outros também jovens, uma ameaça de que talvez nunca mais vestissem a camisa da seleção. E para veteranos campeões, como Gilmar, Bellini e Djalma Santos, o adeus que eles não mereciam. Nenhum deles tinha condições, técnicas e físicas, para repetir as atuaões nas duas Copas do Mundo anterioes, numa competição que marcaria o sucesso do chamado “futebol-força”, não por acaso praticado pelas duas equipes que chegariam à final: Inglaterra e Alemanha.

Djalma Santos, jogador que sempre se cuidou, só se afastou da bola quando não pôde mais acompanhar o embalo dos pontas que deveria marcar. Em 1969, foi atuar pelo Atlético Paranaense, driblando mais uma vez o tempo e aquela ideia que chegou a dividir com Didi. Tinha 41 anos quando guardou as chuteiras para sempre.

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